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Com queda de pirataria, a receita da Digitron subirá 40%
São Paulo, 3 de Julho de 2008

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São Paulo, 3 de Julho de 2008 - A Digitron, maior empresa brasileira de placas-mãe para computadores e desde abril a única do mundo habilitada a produzir com a marca da fabricante de chips americana Intel, vai ampliar sua produção em 20% até o fim do ano. Das atuais 800 mil unidades ao mês que fabrica em sua nova unidade inaugurada no fim de 2007 em Manaus, chegará a mais de 950 mil ainda em 2008.

A capacidade total é de 1,2 mil placas, nos 14 mil metros quadrados construídos, em um terreno de 60 mil metros quadrados. A unidade nasceu de aporte realizado em 2005 da Intel Capital, braço de investimentos da empresa dominante no mercado mundial de chips para computadores pessoais (PC).

Até o ano passado, a Digitron possuía duas unidades fabris na capital amazonense, com capacidade de produção de 600 mil unidades e sem uma linha de produção que se encerrasse no mesmo endereço onde começava. "Uma parte da linha acontecia no transporte dos produtos de uma fábrica para a outra. Três vezes por dia havia comboios levando as placas de um lugar para outro para terminar a processo", relembra rindo o fundador da empresa, Sung Un Song.

O salto para as condições atuais foi expressivo para uma empresa que no começo da década passou cerca de cinco anos sem crescimento significativo, devido ao domínio da pirataria em seu segmento. Produtos ilegais compunham 75% do segmento de placas-mãe. "Hoje estão abaixo 30%, e acho que podem chegar ao mínimo de 5% e 10% do mercado", avalia. Com a produção crescendo 20%, a Digitron pretende ampliar o faturamento em quase 40%, uma vez que a demanda maior por notebooks e computadores mais caros está ajudando na venda de placas de maior valor e que também trazem maior margem de lucro para a empresa, conta. A projeção de faturamento para este ano é de R$ 480 milhões.

Numa fábrica de placas-mãe, em que a produção acontece 24 horas por dia, são 1,2 mil pessoas trabalhando em três turnos. E a expectativa é atingir entre 1,4 mil e 1,5 mil empregados em setembro, quando a empresa passará a produzir três novos modelos da Intel. Hoje apenas um é fabricado. As placas da Intel representam 10% de sua produção. O maior volume vem da Gigabyte, empresa de Taiwan, que responde por 70% do total. Os 20% restantes são da marca própria PCware.

A entrada da Intel Capital como um dos seus acionistas teve grande importância para a renovação da Digitron, mas o acordo é apenas uma parte de uma reformulação estratégica que soprou de dentro da empresa criada pelo engenheiro Song há 22 anos. Apesar da falta de crescimento, a posição da empresa era confortável. "Éramos líderes do mercado legal e com uma boa lucratividade", conta. "A curto prazo estava tudo bem, mas sempre poderia haver o risco de chegar uma empresa asiática de maior porte e de repente roubar o mercado."

Então a empresa adotou uma estratégia arriscada, a de aumentar substancialmente seus volumes de produção, para baixar preços e passar a competir diretamente com o mercado ilegal. Segundo o empresário, um consultor que trabalhava na empresa ficou bastante apreensivo e, quando percebeu que o plano seria realmente levado à frente, preferiu se afastar. Dos três acionistas que a empresa tinha, um também estava menos seguro e acabou deixando a empresa depois substituído pela Intel. Atratividade brasileira

Na mesma época, havia negociações no Ministério de Ciência e Tecnologia que levaram à criação da MP do Bem, que em 2005 concedeu benefícios fiscais para os computadores produzidos no Brasil e deu um forte impulso na demanda. Os volumes maiores tornaram os preços competitivos frente ao mercado ilegal. "Só repressão policial não baixa a pirataria", conclui Song.

Nessas condições, a Intel passou a dar mais atenção para o mercado brasileiro, que se tornou um dos mais aquecidos do mundo. O Brasil - apesar de ser principalmente um importador, com pequena produção própria, de componentes para a montagem de computadores - é atualmente o quinto maior consumidor de hardware do mundo e, segundo previsão da empresa de pesquisas IDC chegará à terceira posição até 2012, atrás apenas dos Estados Unidos e a China.

As condições foram ideais para a chegada do investimento da Intel, que, segundo afirma Song, propôs fazer um investimento até superior na Digitron do que acabou realizando com o objetivo de adquirir uma participação maior. Os valores e a porcentagem de presença acionária não foram revelados.

"Para nós, o aporte não era o motivo principal para o acordo", diz. Como havia uma grande interdependência entre as duas empresas na cadeia de fornecimento para as fabricantes de computadores instaladas no Brasil, Song resolveu melhorar as relações com a subsidiária da americana.

Segundo explica o empresário, as fabricantes de placas-mãe costumavam antecipar a mudança da produção para novas tecnologias quando a Intel anunciava que iria passar a comercializar um novo modelo de chip e descontinuar um velho. Era uma forma de evitar perdas maiores se a multinacional adiantasse a migração. "Se estivéssemos atrasados na adaptação de nossas placas para o novo produto e os chips obsoletos ficassem indisponíveis, tínhamos que jogar a produção fora", afirma. "Então era melhor antecipar a renovação, porque, se os chips atrasassem, no máximo perdíamos um ou dois meses."

Como resultado da estratégia, o risco de maior prejuízo ficava para a Intel, que, se desejava queimar os estoques de um produto em fim de ciclo de vida, muitas vezes encontrava indisponibilidade de placas no mercado.

Com o foco maior dado ao Brasil pela multinacional, Song decidiu se aproximar da empresa para tornar mais previsível o trabalho conjunto e a partir daí surgiram as conversas de investimentos em conjunto.(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 1)(Carlos Eduardo Valim)

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